sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

SombraS

Hoje passei por todas as ruas que antes dominava. Algo dentro de mim não conseguia sossegar até ter a certeza de que elas já não me pertenciam mais.
Todas mudaram desde o verão passado. Elas já não se iluminam para poder passar em segurança, hoje elas ensinaram-me a não temer a escuridão. Afinal,  voltei a ser só mais alguém que passa por elas, com o passo apressado e sem tempo para poder olhar para aqueles pormenores que só quem respira arte consegue ver. As minhas lojas favoritas fecharam. Deram lugar às recordações que naquelas paredes, agora revestidas de passado, podem ser admiradas pelos vidros das vitrinas que só quem as conhecia outrora sabe dar o devido valor que elas realmente têm. Já não encontrei olhares curiosos a espreitar por um cantinho da janela, só para ver se reconheciam aquela menina que cantava e encantava em cada porta por onde passava.

Também não tive a coragem de outros tempos para cantar,  talvez porque já não encanto ou talvez porque já não sou uma menina.

Hoje sou mulher e talvez seja simplesmente a sombra do que já tive coragem de ser. Talvez seja a sombra de mais uma vida que se perdeu por aquelas ruas e que agora se perde em si própria como uma criança assustada pela trovoada, que teima em iluminar a calma escuridão da noite.

Talvez eu seja tudo isso, ou talvez não seja nada. Ou talvez só precise de novas ruas por onde me possa perder até poder chamar elas de "minhas"...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

1 quarto para as 2

Não te demores, mas também não tenhas pressa. Pelo caminho podes trazer chocolates, se quiseres. Não tenho nada doce por aqui para acompanhar o café.
Enquanto não chegas, eu vou preparar a lareira e o meu coração. Não quero que sintas o frio que se faz sentir por estes lados. Ouvi dizer que odeias sentir-te desconfortável em qualquer lado que vás. Não sou perfeccionista mas quero, desta vez, que cada detalhe seja perfeito.
Espero que gostes do jantar. Comprei aquele vinho que gostas tanto. Passei o dia inteiro, de loja a em loja, à procura dele. Tu sabes, eu não sei de todo do apreciar um bom vinho, mas o único que eu quero é apreciar a tua cara enquanto o bebes.
Acabei por comprar aquele vestido em tons de salmão que vimos na loja, aqui há uns tempos. Sinto-me um pouco desconfortável quando saio dos tons escuros que estou habituada a usar para me esconder entre o stress do dia a dia. Mas sei que gostas de cores em tons de pastel para combinar com os teus casacos azuis escuros. Não importo de me adaptar aos teus gostos, sei que vais ficar surpreendido.
Pensei que depois do jantar poderíamos ver um filme, mas não acho adequado passarmos tanto tempo envolvidos em uma história qualquer que, além de não existir, não se compara de todo à nossa. Não vamos perder o pouco tempo que temos com ilusões, quando podemos criar a nossa própria história. Não haverá regras nem limites mas talvez, quem sabe,  um final feliz.
Sei que não querias  nada planeado, mas a minha vida é feita de improvisos e a maior parte deles infelizes. Só quero ter a certeza que tudo correrá como realmente esperas. Disseste que não fazias espectativas de nada, mas sei que essa é a maior mentira de sempre. Toda a gente cria ilusões de momentos perfeitos, mesmo sem se aperceber. Tu, com certeza  não serás exceção.
Espero-te na minha casa às oito. Não te demores, mas também não tenhas pressa.
Eu vou ficar á espera, o tempo que for preciso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

06012015

Aprendi a não temer o escuro.

Nele nada existe, incluindo eu.

 

Esta foi a melhor forma que tive para fugir de mim por uns momentos.

Nele, todas as lágrimas que aparecem no meu rosto não existem. Nele, aquelas vozes que me atormentam, gritando raivosas todos aqueles nomes em que eu acredito, não passa de uma mera ilusão.  Nele o meu corpo, do qual sinto tanta vergonha, evapora-se e os meus olhos tornam-se inúteis por não poderem olhar para aqueles risos cheios de malicia e todos aqueles dedos a apontarem para mim. No escuro não existe dor, mas também não existe conforto. Não existe certo nem errado. Não existe vida. É preciso ver para crer e se eu não me vejo, então não necessito de acreditar que realmente existo. Estou cansada de seguir as ilusões que me dizem que tudo vai ficar bem. Nada vai ficar bem porque não nasci num conto de fadas para acabar com um final feliz!

Mas ainda estou a tempo de tornar a escuridão eternidade...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Priscilla




Quem devia estar aqui era ela, mas ela decidiu ficar até mais tarde no trabalho no seu dia de anos. Era ela que devia estar abraçada a ele enquanto ele fuma o seu cigarro e pensa em mil e uma coisas que ninguém consegue imaginar nem advinhar. Era ela que o devia ter deixado louco, era ela que devia ter despido a sua roupa do escritório para vestir a alma e a dor de um homem que faz qualquer uma sonhar com os sonhos que ele próprio já não sonha.
Era eu quem a devia de apoiar as suas lágrimas e dizer que estava do seu lado cada vez que finjo não as ver, porque eu sei que o motivo daquelas lágrimas sou eu. Não que seja a única, mas ela sabe que todas as vezes que ele chega tarde a casa depois de um concerto, ele está com outra, em outra cama e em outros lençõis. O que ela não sabe, é que eusou a única que tem o privilégio de entrar na sua casa, deitar-se no lado da cama onde ela devia de estar e poder ouvi-lo a dizer que sou a sua ''pequena estela'' depois de fazermos amor. Era ela que devia de o segurar e de por um pouco mais de maquilhagem nos olhos para que ele nao quisesse mais ninguém além dela. Era eu que lhe devia de dar conselhos sobre tais coisas, mas prefiro deixar os melhores truques para mim porque, apesar de tudo, era eu que devia de deitar-me com ele todos os dias e fazer-lhe o pequeno-almoço todas as manhãs. Devia ser eu! Eu mereço isso, mais do que qualquer cabra que se deita com ele!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

...



Era só um cigarro
Era o único que eu queria dele – um cigarro! Queria relaxar, ficar só com os meus pensamentos, mas ele não queria que ficasse só. Decidiu vir então atrás de mim. Ignorei-o, e pensei ignorá-lo durante todo aquele tempo, esquecer que ele iria ficar ao meu lado. Sentei-me no chão, comecei a fumar e ele seguiu todos os meus passos. Ficámos os dois em silêncio, tinha sido mais fácil do que eu pensava.

Era só uma pergunta
‘’Que se passa?’’ Perguntou-me quebrando o bendito silencio. Não lhe queria responder, mas sabia que se assim não o fizesse, ele continuaria a insistir no assunto. Não queria ser falsa com ele, não lhe queria dizer que não se passava nada quando se passava tudo. Mas também não queria de maneira nenhuma desabar tudo o que tentei segurar por tanto tempo.

Era só um gesto
Ele nunca tinha sido assim comigo. Eu era completamente invisível aos olhos dele. Porque é que ele me seguiu? Porque é que no meio de todos aqueles que eu confio, ele foi o único a preocupar com o que se passava na minha cabeça? Respondi-lhe então á sua resposta com essa mesma pergunta: ‘’Porque te preocupas com isso?’’

Era só uma verdade
‘’Porque talvez sou o único que no meio de todos aqueles que sempre te abraçam nos bons momentos, se preocupa realmente contigo nos maus momentos’’. Engoli a seco aquela resposta. Ele tinha razão naquilo que dizia e de repente, tudo desabou!

Era só um abraço
Aquele sim, tinha sido o abraço mais verdadeiro que tinha recebido em toda a minha vida. Era como se ele estivesse a ver comigo naquele preciso momento, todo o meu castelo de tristezas a ir abaixo de uma vez, mas como se estivesse a agarrar-me na mão para construir um novo, cheio de alegrias.

Era só um olhar
O mundo silenciou, era como se o tempo estivesse a contrarrelógio, como se naquele momento visse todas coisas a afastarem-se de nós. E eu reencontrei-me, no lugar onde nunca pensei em me procurar.

Era só um beijo
Lento, carinhoso e apaixonado. Naquele momento tudo fez sentido, todos os pensamentos, todas as ilusões, todos os sorrisos dados em vão. Agora tudo tinha explicação, tudo teve uma razão de acontecer.

Era só um momento, mas tornou-se numa doce eternidade.