domingo, 22 de março de 2015

Angélica ♡

- Não me vou permitir chorar, eu sou forte! - Mentalizou-se Angélica, antes de se aperceber que as lágrimas já lhe escorriam pelo rosto. - Tola! - Repreendeu-se em voz alta enquanto se ria de si mesma, olhando o espelho que a enfrentava naquele minúsculo espaço que era o seu quarto. - Tola, tola, tola! - Tentou encontrar algum sítio onde não pudesse ver o seu reflexo. Aquele espelho a fazia sentir bela e vaidosa toda a vez que se arranjava para sair, mas era o primeiro a julgá-la nos seus momentos de fraqueza.

Percebeu então o quão forte podia ser aquele sentimento que, mesmo depois de tudo estar terminado, ainda não tinha a certeza se lhe podia chamar de amor. Sempre ouvira dizer que ficar apaixonada era algo realmente bom. Era um verdadeiro motivo para acordar todos os dias de manhã,  disposta a enfrentar o mundo. Se aquilo fosse realmente amor, não devia magoá-la e muito menos fazê-la sentir como se este, tivesse mais poder sobre o seu corpo do que ela própria.

Normalmente o ser humano é capaz de associar tudo a esse mesmo sentimento: se vemos uma cena romântica num filme - daquelas de cortar a respiração -, imaginamos automaticamente como seria, se fossemos nós e a pessoa por quem estamos apaixonados os protagonistas. Se estamos numa esplanada de algum café e de repente avistamos numa mesa ao lado, um casal feliz por ver o seu filho a dizer as primeiras palavras, suspiramos ao imaginar como era mágico ver a nossa paixão babada com um fruto desenvolvido do nosso amor. Se ouvimos uma música lamechas no rádio enquanto estamos parados no trânsito, desejamos automaticamente ouví-la enquanto estamos nos braços daquela pessoa, seguras de que não existe nada mais importante no mundo do que aquele momento. É algo que vem do instinto do ser humano e por mais que Angélica desejasse ser diferente, ela sabia que era difícil contrariar as leis da vida.

Quando tudo acaba, temos de tentar ao máximo separar o sentimento que colocamos nessas simples coisas, que sempre aparecem de surpresa na nossa rotina diária. Se assim não o fizermos, estamos sujeitos a ser assombrados pelos fantasmas de todas as ambições, desejos e alegrias que tinhamos direito a desfrutar outrora.

Angélica pensava que era forte o suficiente para superar tudo isso, mas assim que aquela música ecoou entre as paredes do seu quarto, percebeu que ela já estava enraizada em demasia a um só rosto e a um só nome: Afonso. Bastava ouvir esse mesmo nome em qualquer lugar para que ela fizesse todos os esforços para encontrar o mais pequeno sinal da sua presença, mesmo sabendo que estava a ser patética. Já passaram dois meses desde que ele se mudou para Londres e ela ainda não encontrou maneira de explicar gentilmente ao seu coração que ele se foi embora para sempre.

Tudo na sua rotina pedia um pouco dele, mesmo que ela nem sempre se apercebesse. Desde apanhar o cabelo numa trança, a tentar ter mais calma com as suas colegas de quarto, como ele recomendara. Ela sabia que se Afonso ainda estivesse com ela, ele iria se sentir feliz por saber que ela ainda segue os seus conselhos. 

Era escusado, ou pelo menos era essa a forma como ela encarava aquela situação. Talvez ela estivesse destinada a ter um só rosto em sua mente, um só nome nos seus lábios e um só sentimento no seu coração.

Voltou a enfrentar o espelho. Reparou que estava a usar aquela camisola que ele lhe tinha dado no primeiro dia de S. Valentim que passaram juntos. Não combinava de todo com o estilo dela. Estavam juntos há muito pouco tempo quando Afonso a comprou e ele ainda não a tinha descoberto o suficiente para conhecer os seus gostos. Aliás, Afonso não tinha senso nenhum de moda ou estilo e Angélica estava segura que esse tinha sido um dos motivos que a fez apaixonar por ele. Mesmo com o seu estilo tão simples e despreocupado, ele conseguia ser o rapaz mais estiloso que alguma vez passou por aquela faculdade.

Últimamente, aquela era a sua camisola favorita. Usava-a vezes sem conta e sem se quer se aperceber o porquê de o fazer. Tanto aquela camisola, como tudo aquilo que o recordava, eram vestígios que ele existiu na sua vida e de que eles existiram. Concluiu  então que por mais que ele já não estivesse em Portugal, ela nunca estaria preparada para o deixar ir embora de vez. Ela sabia que era o verdadeiro lar de Afonso, mas não a sua casa.

- E se te deixar ficar? - Perguntou ao seu próprio reflexo, olhando nos seus próprios olhos. - Até quando vou conseguir manter a minha sanidade mental?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

SombraS

Hoje passei por todas as ruas que antes dominava. Algo dentro de mim não conseguia sossegar até ter a certeza de que elas já não me pertenciam mais.
Todas mudaram desde o verão passado. Elas já não se iluminam para poder passar em segurança, hoje elas ensinaram-me a não temer a escuridão. Afinal,  voltei a ser só mais alguém que passa por elas, com o passo apressado e sem tempo para poder olhar para aqueles pormenores que só quem respira arte consegue ver. As minhas lojas favoritas fecharam. Deram lugar às recordações que naquelas paredes, agora revestidas de passado, podem ser admiradas pelos vidros das vitrinas que só quem as conhecia outrora sabe dar o devido valor que elas realmente têm. Já não encontrei olhares curiosos a espreitar por um cantinho da janela, só para ver se reconheciam aquela menina que cantava e encantava em cada porta por onde passava.

Também não tive a coragem de outros tempos para cantar,  talvez porque já não encanto ou talvez porque já não sou uma menina.

Hoje sou mulher e talvez seja simplesmente a sombra do que já tive coragem de ser. Talvez seja a sombra de mais uma vida que se perdeu por aquelas ruas e que agora se perde em si própria como uma criança assustada pela trovoada, que teima em iluminar a calma escuridão da noite.

Talvez eu seja tudo isso, ou talvez não seja nada. Ou talvez só precise de novas ruas por onde me possa perder até poder chamar elas de "minhas"...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

1 quarto para as 2

Não te demores, mas também não tenhas pressa. Pelo caminho podes trazer chocolates, se quiseres. Não tenho nada doce por aqui para acompanhar o café.
Enquanto não chegas, eu vou preparar a lareira e o meu coração. Não quero que sintas o frio que se faz sentir por estes lados. Ouvi dizer que odeias sentir-te desconfortável em qualquer lado que vás. Não sou perfeccionista mas quero, desta vez, que cada detalhe seja perfeito.
Espero que gostes do jantar. Comprei aquele vinho que gostas tanto. Passei o dia inteiro, de loja a em loja, à procura dele. Tu sabes, eu não sei de todo do apreciar um bom vinho, mas o único que eu quero é apreciar a tua cara enquanto o bebes.
Acabei por comprar aquele vestido em tons de salmão que vimos na loja, aqui há uns tempos. Sinto-me um pouco desconfortável quando saio dos tons escuros que estou habituada a usar para me esconder entre o stress do dia a dia. Mas sei que gostas de cores em tons de pastel para combinar com os teus casacos azuis escuros. Não importo de me adaptar aos teus gostos, sei que vais ficar surpreendido.
Pensei que depois do jantar poderíamos ver um filme, mas não acho adequado passarmos tanto tempo envolvidos em uma história qualquer que, além de não existir, não se compara de todo à nossa. Não vamos perder o pouco tempo que temos com ilusões, quando podemos criar a nossa própria história. Não haverá regras nem limites mas talvez, quem sabe,  um final feliz.
Sei que não querias  nada planeado, mas a minha vida é feita de improvisos e a maior parte deles infelizes. Só quero ter a certeza que tudo correrá como realmente esperas. Disseste que não fazias espectativas de nada, mas sei que essa é a maior mentira de sempre. Toda a gente cria ilusões de momentos perfeitos, mesmo sem se aperceber. Tu, com certeza  não serás exceção.
Espero-te na minha casa às oito. Não te demores, mas também não tenhas pressa.
Eu vou ficar á espera, o tempo que for preciso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

06012015

Aprendi a não temer o escuro.

Nele nada existe, incluindo eu.

 

Esta foi a melhor forma que tive para fugir de mim por uns momentos.

Nele, todas as lágrimas que aparecem no meu rosto não existem. Nele, aquelas vozes que me atormentam, gritando raivosas todos aqueles nomes em que eu acredito, não passa de uma mera ilusão.  Nele o meu corpo, do qual sinto tanta vergonha, evapora-se e os meus olhos tornam-se inúteis por não poderem olhar para aqueles risos cheios de malicia e todos aqueles dedos a apontarem para mim. No escuro não existe dor, mas também não existe conforto. Não existe certo nem errado. Não existe vida. É preciso ver para crer e se eu não me vejo, então não necessito de acreditar que realmente existo. Estou cansada de seguir as ilusões que me dizem que tudo vai ficar bem. Nada vai ficar bem porque não nasci num conto de fadas para acabar com um final feliz!

Mas ainda estou a tempo de tornar a escuridão eternidade...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Priscilla




Quem devia estar aqui era ela, mas ela decidiu ficar até mais tarde no trabalho no seu dia de anos. Era ela que devia estar abraçada a ele enquanto ele fuma o seu cigarro e pensa em mil e uma coisas que ninguém consegue imaginar nem advinhar. Era ela que o devia ter deixado louco, era ela que devia ter despido a sua roupa do escritório para vestir a alma e a dor de um homem que faz qualquer uma sonhar com os sonhos que ele próprio já não sonha.
Era eu quem a devia de apoiar as suas lágrimas e dizer que estava do seu lado cada vez que finjo não as ver, porque eu sei que o motivo daquelas lágrimas sou eu. Não que seja a única, mas ela sabe que todas as vezes que ele chega tarde a casa depois de um concerto, ele está com outra, em outra cama e em outros lençõis. O que ela não sabe, é que eusou a única que tem o privilégio de entrar na sua casa, deitar-se no lado da cama onde ela devia de estar e poder ouvi-lo a dizer que sou a sua ''pequena estela'' depois de fazermos amor. Era ela que devia de o segurar e de por um pouco mais de maquilhagem nos olhos para que ele nao quisesse mais ninguém além dela. Era eu que lhe devia de dar conselhos sobre tais coisas, mas prefiro deixar os melhores truques para mim porque, apesar de tudo, era eu que devia de deitar-me com ele todos os dias e fazer-lhe o pequeno-almoço todas as manhãs. Devia ser eu! Eu mereço isso, mais do que qualquer cabra que se deita com ele!