sexta-feira, 17 de abril de 2015

Causa(dor)

Tenho saudades de te ver chegar. Tenho saudades de sentir saudades tuas mas de ter a segurança que algum dia elas iriam acabar. Hoje vou acumulando saudade e quem sabe para sempre. Tudo porque ninguém me avisou no dia em que te conheci que algum dia teria que te esquecer. Talvez ninguém teve a coragem de estragar a minha felicidade ou talvez fosse tão óbvio, que toda a gente estava à espera que te esquecesse fácilmente.
É difícil esquecer as sensações tão surreais que me fazias sentir.
É difícil esquecer a forma como acreditei mais uma vez no que é inacreditável para mim.
É difícil esquecer a forma como mudaste para sempre a minha forma de encarar a vida, desde o primeiro dia em que te conheci.
É impossível esquecer uma pessoa como tu,
perfeita de mais para este mundo.
Sinto como se nunca mais fosse capaz de sentir algo tão grande como senti por ti mas sinto-me tão grata por ter tido o privilégio de poder ver o teu sorriso divino a esboçoar-se por e para mim.
Dava tudo por mais um soriso teu,
por um último.
Todos os dias meto na minha cabeça preciso de fazer a despedida de algo que nunca começou. Preciso de seguir em frente, ainda tenho tanto a percorrer...
Sempre irás pertencer à melhor parte de mim e todas as fracções de segundo que estive na tua presença serão o melhor sonho que tive em toda a minha vida.
Se as lágrimas que me escorrem sem permissão pelo rosto e o aperto que sinto no meu coração são a paga por todos os momentos que me proporcionaste, então devo de dizer que me sinto feliz por sofrer todos os dias por ti. É a prova de que tudo valeu a pena para mim.
Há muito tempo que nada valia a pena na minha vida quando chegaste.
O despertador toca,
outro dia,
a mesma rotina de sempre,
tenho de acordar.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Comédia&Tragédia

Transformámos o mundo numa autêntica peça de teatro! Não estamos permitidos a fazer ensaios, todas as cenas são improvisadas e quem tem a melhor máscara é quem normalmente ouve mais palmas no final.
Tornámonos obcecados por holofotes que nada mais fazem do que proporcionar uma falsa segurança de que somos o centro das atenções. Toda a gente anseia pelo seu momento de fama, mesmo inconscientemente. Queremos nos sentir seguros, amados e odiados, mas nenhum de nós quer ser indiferente ou passar despercebido quando as luzes apontarem para nós.
Ficamos doentes por um pouco de inspiração. Por algo que nos faça sentir verdadeiros artistas, algo que nos cative a mente à primeira vista. Se nós nos interpretamos como pequenos (grandes) Deuses, então a arte será o nosso pecado.
Vivemos no mundo faz-de-conta e aparentemente não estamos muito preocupados com isso. Fingimos não ver a tragédia, mas ficamos de olhos vidrados na comédia.

E no final, todos nós queremos uma ovação por termos resistido com os pés firmes no palco durante toda a peça.

domingo, 22 de março de 2015

Angélica ♡

- Não me vou permitir chorar, eu sou forte! - Mentalizou-se Angélica, antes de se aperceber que as lágrimas já lhe escorriam pelo rosto. - Tola! - Repreendeu-se em voz alta enquanto se ria de si mesma, olhando o espelho que a enfrentava naquele minúsculo espaço que era o seu quarto. - Tola, tola, tola! - Tentou encontrar algum sítio onde não pudesse ver o seu reflexo. Aquele espelho a fazia sentir bela e vaidosa toda a vez que se arranjava para sair, mas era o primeiro a julgá-la nos seus momentos de fraqueza.

Percebeu então o quão forte podia ser aquele sentimento que, mesmo depois de tudo estar terminado, ainda não tinha a certeza se lhe podia chamar de amor. Sempre ouvira dizer que ficar apaixonada era algo realmente bom. Era um verdadeiro motivo para acordar todos os dias de manhã,  disposta a enfrentar o mundo. Se aquilo fosse realmente amor, não devia magoá-la e muito menos fazê-la sentir como se este, tivesse mais poder sobre o seu corpo do que ela própria.

Normalmente o ser humano é capaz de associar tudo a esse mesmo sentimento: se vemos uma cena romântica num filme - daquelas de cortar a respiração -, imaginamos automaticamente como seria, se fossemos nós e a pessoa por quem estamos apaixonados os protagonistas. Se estamos numa esplanada de algum café e de repente avistamos numa mesa ao lado, um casal feliz por ver o seu filho a dizer as primeiras palavras, suspiramos ao imaginar como era mágico ver a nossa paixão babada com um fruto desenvolvido do nosso amor. Se ouvimos uma música lamechas no rádio enquanto estamos parados no trânsito, desejamos automaticamente ouví-la enquanto estamos nos braços daquela pessoa, seguras de que não existe nada mais importante no mundo do que aquele momento. É algo que vem do instinto do ser humano e por mais que Angélica desejasse ser diferente, ela sabia que era difícil contrariar as leis da vida.

Quando tudo acaba, temos de tentar ao máximo separar o sentimento que colocamos nessas simples coisas, que sempre aparecem de surpresa na nossa rotina diária. Se assim não o fizermos, estamos sujeitos a ser assombrados pelos fantasmas de todas as ambições, desejos e alegrias que tinhamos direito a desfrutar outrora.

Angélica pensava que era forte o suficiente para superar tudo isso, mas assim que aquela música ecoou entre as paredes do seu quarto, percebeu que ela já estava enraizada em demasia a um só rosto e a um só nome: Afonso. Bastava ouvir esse mesmo nome em qualquer lugar para que ela fizesse todos os esforços para encontrar o mais pequeno sinal da sua presença, mesmo sabendo que estava a ser patética. Já passaram dois meses desde que ele se mudou para Londres e ela ainda não encontrou maneira de explicar gentilmente ao seu coração que ele se foi embora para sempre.

Tudo na sua rotina pedia um pouco dele, mesmo que ela nem sempre se apercebesse. Desde apanhar o cabelo numa trança, a tentar ter mais calma com as suas colegas de quarto, como ele recomendara. Ela sabia que se Afonso ainda estivesse com ela, ele iria se sentir feliz por saber que ela ainda segue os seus conselhos. 

Era escusado, ou pelo menos era essa a forma como ela encarava aquela situação. Talvez ela estivesse destinada a ter um só rosto em sua mente, um só nome nos seus lábios e um só sentimento no seu coração.

Voltou a enfrentar o espelho. Reparou que estava a usar aquela camisola que ele lhe tinha dado no primeiro dia de S. Valentim que passaram juntos. Não combinava de todo com o estilo dela. Estavam juntos há muito pouco tempo quando Afonso a comprou e ele ainda não a tinha descoberto o suficiente para conhecer os seus gostos. Aliás, Afonso não tinha senso nenhum de moda ou estilo e Angélica estava segura que esse tinha sido um dos motivos que a fez apaixonar por ele. Mesmo com o seu estilo tão simples e despreocupado, ele conseguia ser o rapaz mais estiloso que alguma vez passou por aquela faculdade.

Últimamente, aquela era a sua camisola favorita. Usava-a vezes sem conta e sem se quer se aperceber o porquê de o fazer. Tanto aquela camisola, como tudo aquilo que o recordava, eram vestígios que ele existiu na sua vida e de que eles existiram. Concluiu  então que por mais que ele já não estivesse em Portugal, ela nunca estaria preparada para o deixar ir embora de vez. Ela sabia que era o verdadeiro lar de Afonso, mas não a sua casa.

- E se te deixar ficar? - Perguntou ao seu próprio reflexo, olhando nos seus próprios olhos. - Até quando vou conseguir manter a minha sanidade mental?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

SombraS

Hoje passei por todas as ruas que antes dominava. Algo dentro de mim não conseguia sossegar até ter a certeza de que elas já não me pertenciam mais.
Todas mudaram desde o verão passado. Elas já não se iluminam para poder passar em segurança, hoje elas ensinaram-me a não temer a escuridão. Afinal,  voltei a ser só mais alguém que passa por elas, com o passo apressado e sem tempo para poder olhar para aqueles pormenores que só quem respira arte consegue ver. As minhas lojas favoritas fecharam. Deram lugar às recordações que naquelas paredes, agora revestidas de passado, podem ser admiradas pelos vidros das vitrinas que só quem as conhecia outrora sabe dar o devido valor que elas realmente têm. Já não encontrei olhares curiosos a espreitar por um cantinho da janela, só para ver se reconheciam aquela menina que cantava e encantava em cada porta por onde passava.

Também não tive a coragem de outros tempos para cantar,  talvez porque já não encanto ou talvez porque já não sou uma menina.

Hoje sou mulher e talvez seja simplesmente a sombra do que já tive coragem de ser. Talvez seja a sombra de mais uma vida que se perdeu por aquelas ruas e que agora se perde em si própria como uma criança assustada pela trovoada, que teima em iluminar a calma escuridão da noite.

Talvez eu seja tudo isso, ou talvez não seja nada. Ou talvez só precise de novas ruas por onde me possa perder até poder chamar elas de "minhas"...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

1 quarto para as 2

Não te demores, mas também não tenhas pressa. Pelo caminho podes trazer chocolates, se quiseres. Não tenho nada doce por aqui para acompanhar o café.
Enquanto não chegas, eu vou preparar a lareira e o meu coração. Não quero que sintas o frio que se faz sentir por estes lados. Ouvi dizer que odeias sentir-te desconfortável em qualquer lado que vás. Não sou perfeccionista mas quero, desta vez, que cada detalhe seja perfeito.
Espero que gostes do jantar. Comprei aquele vinho que gostas tanto. Passei o dia inteiro, de loja a em loja, à procura dele. Tu sabes, eu não sei de todo do apreciar um bom vinho, mas o único que eu quero é apreciar a tua cara enquanto o bebes.
Acabei por comprar aquele vestido em tons de salmão que vimos na loja, aqui há uns tempos. Sinto-me um pouco desconfortável quando saio dos tons escuros que estou habituada a usar para me esconder entre o stress do dia a dia. Mas sei que gostas de cores em tons de pastel para combinar com os teus casacos azuis escuros. Não importo de me adaptar aos teus gostos, sei que vais ficar surpreendido.
Pensei que depois do jantar poderíamos ver um filme, mas não acho adequado passarmos tanto tempo envolvidos em uma história qualquer que, além de não existir, não se compara de todo à nossa. Não vamos perder o pouco tempo que temos com ilusões, quando podemos criar a nossa própria história. Não haverá regras nem limites mas talvez, quem sabe,  um final feliz.
Sei que não querias  nada planeado, mas a minha vida é feita de improvisos e a maior parte deles infelizes. Só quero ter a certeza que tudo correrá como realmente esperas. Disseste que não fazias espectativas de nada, mas sei que essa é a maior mentira de sempre. Toda a gente cria ilusões de momentos perfeitos, mesmo sem se aperceber. Tu, com certeza  não serás exceção.
Espero-te na minha casa às oito. Não te demores, mas também não tenhas pressa.
Eu vou ficar á espera, o tempo que for preciso.